Já leitura de histórias em quadrinhos apresenta efeitos negativos 

É evidente que a frequência com que os jovens leem é associada com sua capacidade de leitura. Apesar de diversas pesquisas científicas comprovarem essa relação, não há muitas evidências que apontem para a influência do tipo de texto que os jovens leem e seu desempenho acadêmico. Em outras palavras, será que a frequência com que um adolescente lê tem efeitos diferentes em suas habilidades literárias, dependendo do tipo de texto consumido? 

Foi com o intuito de responder às questões acima que os pesquisadores John Jerrim e Gemma Moss, do Instituto de Educação do Colégio Universitário de Londres e do laboratório de pesquisas FFT Education Datalab analisaram os dados de mais de 290 mil adolescentes de 35 países diferentes e concluíram, num estudo publicado em 2019 no Jornal Britânico de Pesquisas Educacionais, que o tipo de texto que os jovens leem é fundamental para determinar seu desempenho acadêmico, sendo que a leitura de obras de ficção, como romances, narrativas e contos, foi indicada como a mais benéfica.

O “efeito ficção”, como os pesquisadores chamaram, mostrou que jovens que leem com frequência tais obras têm habilidades de leitura significativamente melhores do que os colegas que não leem. Em contraste, o mesmo não pode ser dito dos outros quatro tipos de textos avaliados pela pesquisa: revistas, não-ficção, jornais e histórias em quadrinhos. 

As informações analisadas foram coletadas em 2009 pelo PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), um estudo comparativo internacional realizado a cada três anos pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), e que avalia três áreas de domínio: leitura, matemática e ciências. 

Os dados analisados também apontam possíveis explicações para a associação entre frequência de leitura, tipo de texto e desempenho dos adolescentes, já que a leitura de ficção tem uma forte relação com o desenvolvimento da capacidade dos jovens para ler, entender e interpretar trechos maiores de textos contínuos. Ou seja, livros de ficção normalmente exigem que o leitor compreenda o conteúdo e a mensagem de textos longos, o que contribui significativamente para o desenvolvimento das habilidades de leitura dos estudantes e consequentemente seu desempenho em outras áreas. 

O infográfico acima, disponibilizado pela instituição portuguesa Iniciativa Educação e baseado na pesquisa de Jerrim e Moss, explicita também outro fator encontrado pelos pesquisadores: os efeitos negativos da leitura das histórias em quadrinhos (“banda-desenhada”), independentemente da frequência analisada. Conforme é possível averiguar acima, na coluna laranja, no caso de obras de ficção, os valores chegam a 26,2%. Essa porcentagem simboliza três vezes mais benefícios para jovens que leem ficção “várias vezes por semana” em relação àqueles que a leem “algumas vezes por ano” (9%, coluna verde). 

Se compararmos, então, os adolescentes que leem obras de ficção tradicionais (como romances, narrativas e contos) várias vezes por semana, com os jovens que leem histórias em quadrinho uma vez por mês, o benefício alcançado pelo primeiro grupo chega a ser 44 vezes mais alto.

Apesar de 65 países participarem da prova do PISA, entre eles o Brasil, a análise do estudo em questão foi concentrada apenas nos dados dos 35 países membros da OCDE, da qual o Brasil não participa. Essa seleção foi feita por conta do interesse dos pesquisadores em analisar as habilidades literárias no mundo desenvolvido, em que tipos diferentes de textos estão disponíveis livremente e onde a grande maioria dos adolescentes avaliados ainda está na escola. 

Nos países de renda média participantes da pesquisa, como Chile, Turquia e México, assim como diversas outras nações do leste europeu, a associação entre a leitura de ficção e a pontuação na avaliação da leitura feito pelo teste do PISA foi comparativamente baixa. Por outro lado, no entanto, países como França, Bélgica, Canadá e Austrália mostraram pontuação muito mais alta. Além disso, dos países analisados, aqueles de língua inglesa apresentaram resultados ainda melhores. A partir dessas informações, os pesquisadores concluíram que a associação entre a frequência de leitura de obras de ficção e as habilidades de leitura dos adolescentes é particularmente pronunciada entre países de alta renda e falantes do Inglês. 

Os apontamentos feitos a partir da pesquisa têm desdobramentos muito relevantes. A leitura é componente essencial para que uma pessoa possa participar de forma eficiente na sociedade. Além disso, ao desenvolver diretrizes educacionais, governos e instituições de ensino também devem atentar para não enfatizar a importância da leitura por meio de diretrizes genéricas, mas desenvolver projetos pedagógicos que deem direcionamento bem fundamentado no que diz respeito ao conteúdo e formato do que é lido e a quantidade de tempo que os jovens deveriam estar lendo. Para os pesquisadores, conforme é possível ler no estudo completo disponível online, diretrizes acadêmicas “devem incluir forte incentivo para que os jovens leiam esse tipo específico de texto”.

 


Fontes:

Jerrim, J., e Moss, G., The link between fiction and teenagers’ reading skills: International evidence from the OECD PISA study, British Educational Research Journal, vol. 45, nº 1, Fevereiro 2019, pp. 181-200.

Magalhães F. V., O ‘efeito de ficção’ na leitura juvenil, Iniciativa Educação, acessado em 09 de março de 2020.

 

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