*Por Inez Augusto Borges

Enquanto esfregava com toda a força o box do meu banheiro, tentando me livrar de uma sujeirinha teimosa que estava me incomodando, eu pensava: “Será que o Iluminismo é mesmo uma derivação distorcida e escabrosa, entabulada a partir de uma compreensão equivocada sobre as ideias judaico-cristãs?”

Sequei o box e passei à limpeza de outra parte da casa, enquanto continuava a pensar em Jean-Claude Guillebaud, que escreveu: “inúmeros autores insistem hoje, mais particularmente, sobre a importância da narrativa do Êxodo como inspiradora dos movimentos de reforma ou de libertação. E isso mesmo quando autores desses movimentos pretendem rejeitar toda dimensão teológica. O Êxodo é o afastamento deliberado de toda a injustiça, a partida, a esperança em ação, a libertação” (A Reinvenção do Mundo – Um Adeus ao Século XX, p. 115).

Guillebaud segue citando autores que o conduzem a admitir a ideia de que o Iluminismo assumiu, ou pretendeu assumir, a realização da esperança messiânica, própria do judaísmo e cristianismo. Ele explica como, no Iluminismo, a ideia da salvação é substituída pela ideia do “progresso”. No Cristianismo, todos os projetos de um mundo igualitário onde o leão se assentará com o cordeiro, bem como todas as promessas de paz entre povos e nações, são atribuídas ao Reino do Messias. No caso do Iluminismo, essas promessas são atribuídas à utopia, ao mundo “construído” pelo próprio homem, por meio do uso da razão, que levará, em última instância, à Razão de Estado. Será, então, a Razão de Estado a responsável pela definição do que é bom para todo o mundo, visto que o Estado definirá os padrões dessa “igualdade”, estabelecendo o que é melhor para o mundo todo.

Enquanto sigo limpando a minha casa e refletindo sobre as palavras de Guillebaud, penso na própria ironia da situação do momento. Essas reflexões sobre Cristianismo e Iluminismo pareceriam à muitas outras mulheres como algo totalmente fora de propósito para uma mulher de mais de 60 anos, com vassoura e rodo nas mãos. Isso porque o movimento Iluminista forneceu a munição necessária para acabar com a percepção judaico-cristã do papel da mulher, “libertando-a” do cuidado com a casa e com a família, a fim de que seus filhos fossem entregues para serem educados pelo Estado.

O movimento Iluminista preparou o terreno para o desconstrucionismo de Jacques Derrida e seus discípulos que atacaram feroz e insanamente as estruturas do Ocidente, ao mesmo tempo em que usurpavam a ideia de futuro e de esperança, além de muitos outros conceitos e princípios oriundos da cultura judaico-cristã, à qual pretendem destruir.

Ao preparar as refeições para a minha família e, ao mesmo tempo, supervisionar a máquina de lavar roupas, comecei a trocar mensagens pelo WhatsApp com outra mulher ocupada com os afazeres de casa e com a vida intelectual e espiritual de suas filhas. Lembrei-me, então, do quanto as mulheres foram instrumentalizadas (enquanto criam estarem sendo libertadas), ao longo dos últimos 150 anos. Desde a publicação dos Princípios Básicos do Comunismo, em 1847, e Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, em 1883, muitas outras aberrações sobre o papel da mulher foram escritas e incorporadas, inclusive no ensino das meninas nas igrejas, lares e escolas cristãs.

Muita inverdade foi proclamada como história da educação, história da família, história da infância, da adolescência, da família, do trabalho infantil, das revoluções e histórias de todas as ciências. A escola foi transformada no local de propagação da mentira e do engano, em vez de incentivo à busca honesta pela verdade histórica e pelo respeito às crenças individuais. Nossas crianças passaram a ouvir de seus mestres, pagos por seus pais e pelos impostos de todos os contribuintes, que todas as crenças eram insensatez e ignorância crassa. Mas, as mulheres, ocupadas demais com sua própria “formação intelectual” e com seu desempenho profissional, entregaram, de bom grado, suas filhas para que delas fossem arrancados coração e cérebro, deixando-as como robôs e marionetes, condenadas a confundir comunismo com liberdade e a considerar como alienados todos os que ousam pensar de modo contrário. Não somente as meninas, mas igualmente os meninos, por meio da escola das últimas décadas, passaram a ser cada vez mais controlados pelo Sistema que dizia estar preparando-os para lutar contra o Sistema. Deu para entender?

Se não compreendeu, não se preocupe, por enquanto. É realmente esta a ideia do desconstrucionismo. Destruir as estruturas familiares, religiosas, políticas, filosóficas, éticas e estéticas a partir de seus próprios núcleos, com vistas a refazê-los ao bel prazer dos “desconstrutores”. Assim, enquanto criticavam o Sistema, o alvo era recriar o Sistema, agora tendo cativos os mesmos corpos e mentes aos quais diziam estar libertando.

A geração de mulheres e homens que agora enfrenta o COVID-19 é resultado deste projeto macabro de transformar todos, por meio da escola, em “iguais”; ou seja, igualmente incapazes de pensar, de refletir e discernir por si mesmo sobre o que é o certo e o que é errado; sobre o que vale e o que não vale a pena fazer, ler, ouvir, assistir, comprar. Todos acreditam que são livres para fazer exatamente tudo aquilo que todo mundo, irrefletidamente, faz. Poucos percebem no quão alienante e macabra foi sendo transformada a linguagem, os brinquedos, os jogos eletrônicos, as novelas, os filmes, as propagandas e – os livros didáticos. Aliás, grande parte da alienação começou e continua exatamente a partir do livro didático.

E é esta geração de pais e mães que agora está em casa com seus filhos que não podem ir à escola, porque o governo decidiu que assim deve ser. Será que foi mesmo o governo quem decidiu? Quais seriam as razões dos dominadores internacionais para fazer com que crianças ficassem em casa com suas mães e pais, contrariando todas as determinações, também internacionais, segundo as quais “lugar de criança é na escola”?

Diante de todos esses questionamentos, somente consigo chegar a uma conclusão: Deus continua sendo Senhor da História. E Ele faz com que até mesmo o COVID-19 seja um meio para converter “o coração dos pais aos filhos e dos filhos aos seus pais, para que Ele não venha e não fira a terra com maldição” (Malaquias 4.6).

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