Por Martin Cothran*

Há alguns anos estive em uma reunião com educadores do setor privado no meu estado (Kentucky, nos EUA). Após a reunião, um conhecido, que era superintendente de uma rede de escolas privadas, chegou até mim muito animado: ele conseguira uma bolsa para fornecer iPads para os alunos. Não tive coragem de dizer a ele, mas eu não fiquei empolgado. Na verdade, achei que, definitivamente, não era uma boa ideia.

Como educadores, creio que estamos cientes da idolatria tecnológica que caracteriza muito de nossa profissão. Há uma suposição de que, quanto mais tecnologia usarmos, melhor será. Mas deveríamos ser cautelosos com o uso excessivo de tecnologia nas escolas.

O julgamento de Tamus

No diálogo Fedro, escrito por Platão (c. 370 a.C.), Sócrates conta a seguinte parábola: um antigo deus egípcio chamado Toth é questionado por outro deus, Tamus, rei do Egito, a respeito das muitas artes que ele inventou. Sobre a arte da escrita, Toth declara: “Aqui está um feito, meu senhor e rei, que irá aperfeiçoar tanto a sabedoria como a memória dos egípcios. Eu descobri uma receita segura para a memória e para a sabedoria”.

Tamus responde:

“Aqueles que a adquirem cessarão o exercício de sua memória e tornar-se-ão esquecidos; eles confiarão na escrita para trazer coisas à memória por meio de sinais externos ao invés de seus próprios recursos internos… O que você descobriu é uma receita para a recordação, não para a memória. E quanto à sabedoria, seus pupilos terão a reputação dela sem a realidade: eles receberão uma quantidade de informação sem a instrução adequada.”

Ele diz que a escrita é uma espécie de tecnologia da comunicação. Embora se diga que pode ajudar a pessoa que a usa a ganhar conhecimento, na verdade, pode fazer o oposto disso.

Tamus não diz que a escrita em si é ruim. Em outro lugar, Platão fala para que serve a escrita e afirma que ela serve ao propósito de aquisição de conhecimento – quando empregada como uma auxiliar da memória, e não como sua substituta.

A escrita tem sua função, e esta é – argumenta Platão – facilitar a impressão definitiva do Verdadeiro, do Bom e do Belo em nossas almas. Porém, se não for usada corretamente, ela não faz isso. E se não o faz, então é inútil e mesmo prejudicial. Os problemas que Platão diz serem provocados pela escrita são exacerbados pelas sofisticadas tecnologias de comunicação que vemos hoje. O que a escrita faz, os computadores fazem de maneira exponencialmente mais notória.

Usadas descuidadamente, as tecnologias da educação não nos permitem desenvolver nossas mentes – não nos encorajam a lembrar, saber, ou pensar. Ao invés disso, nos estimulam a não memorizar, não saber e não pensar. Elas querem não apenas simplificar o que nós já fazemos: elas prometem fazer tudo por nós. Se usada de maneira imprópria, a tecnologia educacional serve não para nos ajudar, mas para nos substituir.

Terceirizando o conhecimento

Há um antigo episódio da “Ilha dos Birutas” (eu sei, é uma queda acentuada de Platão para Gilligan, mas fique comigo) na qual Gilligan salva a vida de uma menina nativa que havia sido levada para a ilha. Ela se sente em dívida com Gilligan e promete servi-lo. Uma das tarefas diárias de Gilligan é exercitar-se em uma bicicleta que o Professor havia construído para ele. Certa manhã, ele vai se exercitar e encontra a menina pedalando. Ele pergunta: “O que você está fazendo”, ao que ela responde, “Estou fazendo exercícios por você”.

Apesar de tentar ajudá-lo, a garota nativa não está, de fato, ajudando. Para que Gilligan cumpra sua tarefa, ele mesmo precisa exercitar-se. Não é algo que possa ser feito por ela. O Professor o ajudou ao construir a bicicleta, mas a menina está fazendo algo bem diferente: ela não o ajuda, ela o substitui.

O que a escrita faz (e a tecnologia informática nos encoraja ainda mais a fazer) não é inculcar o conhecimento, mas terceirizá-lo. O conhecimento, por definição, envolve a memória. Mas memorizar algo é sabê-lo sem ajuda externa.

A tecnologia educacional pode, sim, ajudar. Eu me recordo de um aparato tecnológico bastante primitivo que era popular quando meus filhos eram pequenos. Chamava-se “GeoSafari” e era feito para ensinar fatos geográficos aos estudantes de maneira eficiente e bela. Minha filha passava horas nessa máquina e adquiriu muito conhecimento geográfico com ela.

A tecnologia educacional, quando corretamente utilizada, é como o Professor que auxilia Gilligan a fazer o que ele necessita. Mas quando incorretamente utilizada, é como a menina nativa que faz o trabalho por ele e o impede de receber seus benefícios.

Sabedoria entorpecente

Tamus não diz apenas que a tecnologia do aprendizado – em seu caso, a escrita – irá dificultar a aquisição do conhecimento, mas que irá até impedir o desenvolvimento da sabedoria: “E quanto à sabedoria, seus pupilos (…) receberão uma quantidade de informação sem a instrução adequada”.

O que ele quer dizer com “instrução adequada”? Que tipo de instrução nós precisamos para lidar com a informação? A resposta é que nós precisamos de uma estrutura para interpretar a informação, dentro da qual possamos ver seu significado. É isso o que Platão quer dizer com “sabedoria”. Sem uma estrutura intelectual, a informação não tem significado. Esse é o problema que muitas das tecnologias modernas tendem a amplificar. Nosso problema não é uma escassez de informação, mas seu excesso – um excesso de informações desorganizadas e fora de contexto.

Como Neil Postam destacou, a partir do século XVII as escolas foram formadas especificamente por essa razão: trazer ordem aos caos informacional produzido pela revolução da imprensa. E em grande parte elas foram bem-sucedidas nisso. Por quê? Porque, apesar do volume de informações desse período, havia uma estrutura na qual todos podiam entendê-las.

Mas nossas instituições educacionais de hoje não reconhecem um retrato coerente do mundo. Elas não admitem uma ordem inerente na estrutura do conhecimento e nem na maneira como ele deveria ser apresentado aos estudantes. Quando admitimos irrefletidamente a tecnologia educacional em nossas escolas, as coisas pioram.

Há duas soluções para esse problema: a moderna e a cristã clássica. A solução moderna para o problema das informações aleatórias e desconexas é fornecer aos estudantes mais disso. Já a solução cristã clássica é ensinar a nossos filhos como ordenar essas informações.

“É sábio o homem que ordena as coisas corretamente”, escreveu São Tomás de Aquino no século XIII. Em outras palavras: o sábio é aquele que sabe onde colocar as coisas. Ele sabe o que é mais importante e o que é menos importante, o que fazer e o que não fazer com seu conhecimento. E a única maneira pela qual ele pode saber isso é por meio de um sistema de significado que lhe informe o lugar apropriado de todas as coisas.

Sabedoria é isso: saber ordenar nosso conhecimento do mundo de maneira que saibamos o que e como pensar sobre ele. E é isso que a educação clássica nos fornece. Por meio das ciências humanas, naturais e teológicas, nós obtemos o conhecimento que precisamos. E por meio das artes liberais, que treinam nossas faculdades mentais, nós desenvolvemos a sabedoria necessária para lidar com esse conhecimento.

A tecnologia pode nos ajudar nessa tarefa, mas com frequência não o faz, e nós precisamos de sabedoria para distinguir quando ela ajuda e quando atrapalha.

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*Sobre o autor:
Martin Cothran é diretor da Classical Latin School Association e editor da revista Classical Teacher, publicado pela Memoria Press nos EUA. Ele é autor de diversos livros utilizados por escolas particulares e famílias educadoras. É formado em Filosofia e Economia pela Universidade da Califórnia em Santa Bárbara e pós-graduado em Apologética Cristã pela Universidade Trinity

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Artigo traduzido com autorização por Cecilia J. D. Reggiani
Revisado por Oswaldo Viana Jr.
Artigo original publicado em Memoria Press.

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Foto que ilustra o artigo por Patrick Tomasso via Unsplash.

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