O lugar secundário do trivium de Dorothy Sayers

Por Martin Cothran*

Se você perguntasse à maioria dos educadores clássicos o que é educação clássica, eles se sentiriam pressionados a dar uma resposta curta e coerente. Assim acontece em muitos movimentos: é fácil ficar entusiasmado, mas quando se pede para explicar os motivos da empolgação, é difícil articulá-los claramente.

Quando se consegue uma resposta para a pergunta: “O que é a educação clássica?”, ela quase sempre vem nos termos do trivium de Dorothy Sayers, com seus três “estágios de desenvolvimento”: o estágio da gramática, o estágio da dialética e o estágio da retórica. Os três juntos, dizem-nos, constituem a educação clássica.

A origem dessa concepção de educação clássica pode ser encontrada em uma palestra que D. Sayers ministrou a estudantes da Universidade de Oxford em 1947, intitulada As Ferramentas Perdidas da Aprendizagem. Apesar da pouca atenção que essa palestra recebeu, à época e nas décadas seguintes, sua republicação em 1991 no livro de Douglas Wilson, Recovering the Lost Tools of Learning (Recuperando as ferramentas perdidas da aprendizagem, sem publicação no Brasil) fez com que ela se tornasse um grito de guerra entre milhares de escolas clássicas e educadores domésticos nos Estados Unidos da América.

O trivium de Sayers

Em seu discurso, Sayers discorreu sobre três “estágios de desenvolvimento” que toda criança passa no curso de sua educação. Há a fase do “papagaio”, ou estágio da gramática, o qual se aproximaria da escola primária, enfatizando a observação e a memorização. A segunda fase, “arrojado”, ou estágio da dialética, se inicia quando a criança começa a contestar e argumentar. Finalmente vem o estágio da retórica, ou fase “poética”. A memorização predomina no estágio da gramática; a análise no estágio da dialética; e a síntese no estágio da retórica.

Não há dúvida de que a fórmula simples e fácil de lembrar de Sayers foi o fator-chave na ascensão do movimento moderno de educação clássica. Mas os educadores clássicos que empregam essa fórmula devem ter cuidado com o modo como a usam em qualquer explicação sobre o que a educação clássica realmente é.

A primeira coisa a ser dita é: a educação clássica não é definida pelo trivium de Dorothy Sayers, e ninguém antes do final do século XX disse (ou pensaria em dizer) que era. Tampouco a própria Sayers identificou explicitamente seus estágios de desenvolvimento como educação clássica, nem na sua palestra ou em qualquer outro lugar. De fato, o termo “educação clássica” nem ao menos aparece naquele discurso.

O trivium de Sayers tem apenas cerca de 70 anos, enquanto a origem e prática da educação clássica remontam a mais de dois mil anos. O trivium de desenvolvimento de Sayers nunca foi conscientemente colocado em prática até a década de 1990, bem depois que a educação clássica foi removida de sua posição como a fonte primária de entendimento do que é a educação.

Seu trivium, ela diz, é “um trivium moderno com modificações” (grifo meu). Seu currículo não era o currículo medieval, mas sim um currículo “neo-medieval”. Devemos conjeturar o que é “moderno” em seu trivium, e o que é “neo” em seu currículo. E devemos perguntar qual é a natureza do relacionamento entre o trivium de Sayers e a educação clássica como sempre foi conhecida e propriamente entendida.

Taxonomias educacionais

Sayers não tenta explicar o que é educação clássica em seu discurso. Esse não é nem remotamente seu propósito. E sua platéia teria associado educação clássica não com qualquer coisa nova que ela estava propondo, mas, primariamente, com a leitura dos Great Books (Grandes Livros) em seus idiomas originais e, secundariamente, com o domínio das artes liberais. Sua audiência também entenderia que o trivium que ela propunha era algo diferente do trivium clássico: este era visto tradicionalmente como uma simples listagem das três primeiras artes liberais (as artes intelectuais relacionadas com a linguagem), as quais, junto com as artes matemáticas do quadrivium (aritmética, geometria, música e astronomia), formam as sete artes liberais clássicas.

O trivium clássico – gramática, lógica e retórica – era uma taxonomia de habilidades intelectuais, procedentes das capacidades de linguagem mais simples e básicas até as mais complexas e sofisticadas. A gramática ensinava os estudantes como a linguagem é estruturada; a lógica, como usar a linguagem na construção de argumentos lógicos; e a retórica, como a linguagem pode ser usada para o propósito da persuasão.

O trivium de Sayers usa a terminologia do trivium clássico, mas produz algo inteiramente diferente: um trivium de desenvolvimento. O trivium clássico é uma taxonomia de habilidades, mas em Sayers temos uma taxonomia de aprendizagem, focada na psicologia de desenvolvimento intrínseca dos estudantes, e não no conteúdo extrínseco de um programa educacional.

O movimento de Sayers constitui uma mudança copernicana no entendimento da educação ao fazer o tema de sua taxonomia não o conhecimento, mas o processo de aprendizagem – não o que, mas como as crianças aprendem. E o que é, se não não-clássico, pelo menos um tanto novo e único, é a posição que sua taxonomia ocupa em sua filosofia geral de educação.

A natureza psicológica do trivium de Sayers

A abordagem de Dorothy Sayers à educação estava muito alinhada com a ênfase psicológica do final do século XIX e início do século XX, como manifestada na ênfase educacional psicológica de John Dewey. Como Dewey, a filosofia educacional de Sayers é “centrada na criança”. Seu trivium é moldado, como ela mesma afirma, em termos da moderna “psicologia infantil”. Essa é uma das grandes mudanças de ênfase que distingue o pensamento moderno do pensamento distintivamente clássico. Nenhum educador antes do século XIX teria pensado em enquadrar a educação dessa maneira.

Historicamente, a psicologia do desenvolvimento suposta por Sayers desempenhava um papel pequeno ou inexistente nos conceitos clássicos que dominavam o pensamento educacional antes de meados do século XIX. Os educadores clássicos focavam-se mais no conteúdo que ensinavam à criança, e no propósito para o qual a ensinavam, do que nos estágios de desenvolvimento da mesma.

O instrumentalismo de Sayers

Assim como Dewey, Sayers coloca o processo da educação acima de seu conteúdo e propósito. Nós, modernos, somos obcecados pela metodologia. Nós pensamos que a forma como fazemos algo é tão – se não mais – importante quanto o que nós fazemos – ou por que fazemos.

“O aluno comum, cuja educação formal termina aos 16 anos”, diz ela, “somente terá passado pelo trivium“. Em outras palavras, Sayers defende uma educação na qual o processo de aprendizagem constitua sua totalidade. No estágio da gramática, ela diz que o material estudado “é de importância apenas secundária”. Ela prossegue afirmando que as matérias “devem ser consideradas como meros grãos para o moinho mental trabalhar”.

Ela é taxonômica em relação a como as crianças aprendem, mas é anárquica quando se trata do que elas devem aprender. Para Sayers, as ferramentas da aprendizagem não são apenas ferramentas, mas a totalidade. “Porque o único e verdadeiro fim da educação é este: ensinar os homens a aprender por si mesmos.”

Devemos realmente acreditar que as ferramentas da aprendizagem são as únicas coisas que importam na educação? Na educação clássica, as antigas artes liberais eram importantes, mas eram apenas as “servas” da aprendizagem. Elas desempenhavam apenas um papel subordinado no drama do aprendizado. As artes liberais constituíam seus meios, não seu fim. Sayers confunde os meios da educação com seu fim, ou talvez mais precisamente, ela considera os meios como o fim em si mesmo.

A ilusão da técnica

No mundo educacional moderno, em que a técnica triunfa sobre o ensino, o trivium de Sayers oferece aos educadores clássicos com um método “para chamar de seu”. Ao invés de repudiar a Loucura Moderna do Método, nós nos contentamos em dizer “meu método é melhor que o seu”. Esse não é um impulso clássico. O impulso clássico é focar-se primeiramente na pessoa ideal que estamos tentando formar e nos modelos pelos quais isso pode ser feito, e apenas secundariamente no processo pelo qual isso é alcançado.

Isso não quer dizer que os insights de Sayers não sejam valiosos (ele são), ou que eles não devam ser considerados úteis (eles devem). Mas nós devemos perceber que suas proposições são secundárias, não primárias, para o empreendimento educacional.

O que é educação clássica

Educação clássica é a inculcação da sabedoria e da virtude por meio da habilidade nas artes liberais e da familiaridade com os Grandes Livros. São Tomás de Aquino define a sabedoria como “ordenar as coisas corretamente”. Se admitirmos isso, então a relação entre o trivium de Sayers e a educação clássica, como sempre foi concebida, passa a ser vista a partir de um foco melhor.

Processo e conteúdo não são mutuamente exclusivos. O que é necessário é um equilíbrio adequado entre os dois, que coloque uma ênfase inequívoca no conteúdo que forma a alma do aluno. Não podemos excluir completamente o método – isso não seria sábio. Mas também não podemos exaltar o processo de educação acima de seu propósito.

Quantas vezes invocamos Dorothy Sayers em contraste com o número de vezes que apelamos a Shakespeare, Dante, Aristóteles, São Paulo e Homero? Temos pouca justificativa para afirmar que somos melhores do que os educadores modernos, se tudo o que fizermos for substituir uma ênfase em Dewey por uma ênfase em Dorothy Sayers. Não se engane: Dorothy é melhor que Dewey. Mas nenhum dos dois deve vencer a tradição. Certos ou errados, nenhum dos dois é mais alto do que os gigantes sobre cujos ombros todos nós estamos.

Se nós articularmos a educação clássica meramente como um método e falharmos em lançar a visão do ocidente cristão como ele se manifestou a si mesmo em nossa literatura, nossa ciência e nossa história, então nós teremos substituído um erro moderno por outro semelhante não menos moderno.

Na medida em que nos esforçamos para encontrar as palavras certas para descrever o que estamos fazendo – para nossos colegas educadores, para os pais em nossas escolas e para nós mesmos – precisamos equilibrar corretamente o apelo de um método sólido com a articulação do que esse método é desenhado para alcançar. Nós achamos que os pais responderão à nossa apresentação dos “três estágios do desenvolvimento” de Dorothy Sayers quando, na verdade, eles responderão ainda mais famintos ao nosso chamado para comprometerem a si mesmos e a seus filhos na defesa fatídica da cultura cristã ocidental.

Vivemos no crepúsculo cultural de uma grande civilização na qual uma crescente escuridão está cada vez mais nos cegando para as maravilhas da criação e a natureza de quem nós somos como seres criados à imagem de Deus. É uma batalha que requererá muito mais do que um simples método.

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*Sobre o autor:
Martin Cothran é diretor da Classical Latin School Association e editor da revista Classical Teacher, publicado pela Memoria Press nos EUA. Ele é autor de diversos livros utilizados por escolas particulares e famílias educadoras. É formado em Filosofia e Economia pela Universidade da Califórnia em Santa Bárbara e pós-graduado em Apologética Cristã pela Universidade Trinity

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Artigo traduzido com autorização por Cecilia J. D. Reggiani
Revisado por Oswaldo Viana Jr.
Artigo original publicado em Memoria Press

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Pintura que ilustra o artigo:
As Sete Artes Liberais, por Francesco Pesellino (circa 1422 – 1457, Florença, Itália). Mais informações aqui.

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